lunedì 29 ottobre 2012

15 de Janeiro de 1544: esta es talvéz la carta mas bella que escribiò san Francisco Xavier



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AOS SEUS COMPANHEIROS
RESIDENTES EM ROMA

Cochim, 15 de Janeiro 1544
Duma cópia em castelhano, feita em Coimbra em 1547

SUMÁRIO: 1. Cartas que tem escrito. – 2. Entre os cristãos do Cabo de Comorim: sua ignorância religiosa, modo de os catequizar, tradução das fórmulas catequéticas em língua malabar. – 3-4. Instruções que dá aos domingos sobre os mandamentos e o credo. – 5. Assiduidade das crianças à catequese e desprezo a que votam os ídolos. – 6. Baptiza as crianças que nascem, catequiza jovens e adultos, envia as crianças da catequese a rezar os evangelhos sobre os enfermos em suas casas. – 7. Nos outros lugares segue o mesmo método. – 8. Ânsias de estimular o zelo dos doutores das universidades a irem para as missões converter pagãos. Trabalhos apostólicos e baptismos até cansar os braços. Apoio do Governador às missões e amizade à Companhia de Jesus. – 9. O colégio para indígenas em Goa, confiado a Micer Paulo. – 10. Vícios dos brâmanes. – 11. Modo de agir com os brâmanes: disputas com eles sobre a imortalidade da alma e a cor de Deus; fealdade dos seus ídolos; respeitos humanos em converterem-se. – 12. Segredos doutrinais que lhe confia um brâmane. – 13-14. Suas grandes consolações e alegrias. Missas pelo cardeal Guidiccioni – 15. Confiança na intercessão dos milhares de crianças que baptizou e morreram na inocência.

A graça e amor de Cristo nosso Senhor seja sempre em nossa ajuda e favor. Amen.

1. Há dois anos e nove meses que parti de Portugal e, desde então, vos escrevi de cá três vezes com esta1. Só umas cartas vossas recebi, desde que estou cá na Índia, as quais foram escritas a 13 de

1 Pelas naus que partiam para Lisboa em 1542 (Xavier-doc. 13, da ilha de Moçambique); pelas naus que partiam em 1543 (Xavier-doc. 15-17, de Goa; Xavier-doc. 19, de Tuticorim).
Doc. 20 – 15 de Janeiro de 1544 135

Janeiro do ano de 15422. A consolação que recebi com elas, Deus Nosso Senhor sabe. Estas cartas entregaram-mas haverá dois meses3. Chegaram tão tarde à Índia, porque o navio em que vinham invernou em Moçambique4.

2. Micer Paulo, Francisco de Mansilhas e eu estamos com muita saúde. Micer Paulo está em Goa, no colégio de Santa Fé: tem o encargo dos estudantes daquela casa. Francisco de Mansilhas e eu estamos com os cristãos do Cabo de Comorim. Há mais de um ano que estou com estes cristãos, dos quais vos faço saber que são muitos5 e se fazem muitos mais cada dia. Logo que cheguei a esta costa, onde eles vivem, procurei saber deles que conhecimento de Cristo Nosso Senhor tinham. Perguntando-lhes, acerca dos artigos da fé, o que criam, ou que mais tinham agora que eram cristãos que quando eram gentios, não obtinha deles outra resposta senão a de que eram cristãos e que, por não entender a nossa língua, não sabiam a nossa lei nem o que haviam de crer6. Como eles não me entendessem nem eu a eles, por ser a sua língua natural a malabar7 e a minha a viscainha, juntei os que entre eles eram mais sabedores e escolhi

2 Esta carta, enviada de Lisboa à Índia em 1542 (Epp. Mixtae I 93) não se encontrou.
3 Provavelmente em Goa, onde Xavier tinha voltado da Pescaria. De Goa partiu de novo Xavier com Mansilhas e o secretário do Governador, António Cardoso, em fins de Dezembro, tendo aportado em Cochim no dia 3 de Janeiro de 1544 (CORREA, Lendas da Índia, IV 335; MX II 180; 185).
4 A urca S. Mateus, que trazia as cartas, teve de invernar em Moçambique e chegou a Goa a 30 de Agosto de 1543 (FIGUEIREDO FALCÃO, Livro 160; CORREA, l.c. IV 264; 305). Inácio voltou a escrever a Xavier em Março de 1543; mas a armada da Índia já tinha partido de Lisboa em 25 de Março, antes de a carta aí chegar (MI Epp. I 267; FIGUEIREDO FALCÃO, Livro 160).
5 Xavier encontrou na Pescaria cerca de 20.000 paravás já baptizados; em fins de 1544 tinha ele baptizado em Travancor uns 10.000 macuas. Por alturas da sua morte, em 1552, a Pescaria e Travancor somavam à volta de 50.000 cristãos (SCHURHAMMER, Die Bekehrung 225-230).
6 Cf. ib. 230-233.
7 Língua tamul.
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Aos Companheiros residentes em Roma pessoas que entendessem a nossa língua e a sua, deles. E depois de nos termos juntado muitos dias, com grande trabalho, traduzimos as orações, começando pelo modo de se benzer confessando as três pessoas serem um só Deus, depois o Credo, Mandamentos, Pai-nosso, Avè-Maria, Salvè-Rainha, e a Confissão geral, do latim em malabar. Depois de as ter traduzido na sua língua e sabê-las de cor, ia por todo o lugar8, com uma campainha na mão, juntando todos os moços e homens que podia e, depois de os ter juntado, ensinava-os cada dia duas vezes. No espaço de um mês, ensinava as orações, dando a seguinte ordem: que os moços, aos seus pais e mães, e a todos os de casa e vizinhos, ensinassem o que na escola aprendiam.
3. Aos domingos, fazia juntar todos os do lugar, tanto homens como mulheres, grandes e pequenos, a dizer as orações na sua língua; e eles mostravam muito prazer e vinham com muita alegria. Começando pela confissão de um só Deus, trino e uno, diziam a grandes vozes o Credo na sua língua: à medida que eu o ia dizendo, todos repetiam. Acabado o Credo, tornava-o a dizer eu só: dizia cada artigo por si e, detendo-me em cada um dos doze, admoestava-os de que cristãos não quer dizer outra coisa senão crer firmemente, sem dúvida alguma, os doze artigos; e, já que eles confessavam que eram cristãos, perguntava-lhes se criam firmemente em cada um dos doze artigos. E assim, todos juntos, a grandes vozes, homens e mulheres, grandes e pequenos, me respondiam a cada artigo que sim, postos os braços sobre o peito, um sobre o outro, em forma de cruz: assim lhes faço dizer mais vezes o Credo que outra oração, pois só por crer nos doze artigos o homem se chama cristão. Depois do Credo, a primeira coisa que lhes ensino são os Mandamentos, dizendo-lhes que a lei dos cristãos tem só dez mandamentos, e que um cristão se diz bom, se os guarda como Deus manda e, pelo contrário, aquele que não os guarda é mau cristão. Ficam muito espantados, tanto cristãos como gentios, de ver quão santa é a lei de Jesus Cristo e conforme com

8 Tuticorim.
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toda a razão natural. Acabado o Credo e os Mandamentos, digo o Pai-nosso e a Avè-Maria: assim como os vou dizendo, assim eles me vão respondendo. Dizemos doze Pai-nossos e doze Avè-Marias em honra dos doze artigos do Credo e, acabados estes, dizemos outros dez Pai-nossos e dez Avè-Marias em honra dos dez Mandamentos, guardando a ordem que se segue. Primeiramente, dizemos o primeiro artigo da fé e, depois de o dizer, digo na sua língua, deles, e eles comigo: Jesus Cristo, Filho de Deus, dai-nos graça para firmemente crer, sem dúvida alguma, o primeiro artigo da fé. E, para que nos dê esta graça, dizemos um Pai-nosso. Acabado o Pai-nosso, dizemos todos juntos: Santa Maria, Mãe de Jesus Cristo, alcançai-nos graça de vosso Filho Jesus Cristo para firmemente sem dúvida alguma crer no primeiro artigo da fé. E, para que nos alcance esta graça, dizemos-lhe a Avè-Maria. Esta mesma ordem seguimos em todos os outros onze artigos.

4. Acabado o Credo e os doze Pai-nossos e Avè-Marias, como disse, dizemos os Mandamentos pela ordem que se segue: primeiramente digo o primeiro mandamento, e todos dizem como eu. Acabando de o dizer, dizemos todos juntos: Jesus Cristo, Filho de Deus, dai-nos graça para amar-vos sobre todas as coisas. Pedida esta graça, dizemos todos o Pai-nosso, acabado o qual, dizemos: Santa Maria, Mãe de Jesus Cristo, alcançai-nos graça de vosso Filho para podermos guardar o primeiro mandamento. Pedida esta graça a Nossa Senhora, dizemos todos a Avè-Maria. Esta mesma ordem seguimos em todos os outros nove mandamentos. De maneira que, em honra dos doze artigos da fé, dizemos doze Pai-nossos com doze Avè-Marias, pedindo a Deus Nosso Senhor graça para firmemente e sem dúvida alguma crer neles; e dez Pai-nossos com dez Avè-Marias, em honra dos dez Mandamentos, rogando a Deus Nosso Senhor que nos dê graça para os guardar. Estas são as petições que por nossas orações lhes ensino a pedir, dizendo-lhes que, se estas graças de Deus Nosso Senhor alcançarem, Ele lhes dará tudo o demais, mais plenamente do que eles o saberiam pedir. A Confissão geral faço-a
138 Aos Companheiros residentes em Roma dizer a todos, especialmente aos que se vão baptizar. E, depois, o Credo, interrogando-os sobre cada artigo, se o crêem firmemente. E, respondendo-me eles que sim e dizendo-lhes [eu] a Lei de Jesus Cristo que terão de guardar para se salvar, os baptizo. A Salvè-Rainha dizemo-la quando queremos acabar as nossas orações.

5. Os jovens, espero em Deus Nosso Senhor que hão-de ser melhores homens que seus pais, porque mostram muito amor e vontade à nossa Lei, e de saber as orações e ensiná-las. Aborrecem-lhes muito as idolatrias dos gentios, a tal ponto que muitas vezes lutam com os gentios e repreendem os seus pais e mães quando os vêem idolatrar, e acusam-nos, de maneira que mo vêm dizer. Quando me avisam de algumas idolatrias, que se fazem fora dos lugares, junto todos os jovens do lugar e vou com eles aonde fizeram os ídolos; e são mais as desonras que o diabo recebe dos jovens que levo, que as honras que seus pais e parentes lhes dão na altura em que os fazem e adoram. Porque tomam os meninos os ídolos e os desfazem em pedaços tão miúdos como cinza9; depois, cospem neles e pisam-nos com os pés; e, finalmente, outras coisas que, embora não pareça bem nomeá-las por seus nomes, é honra dos jovens fazê-las a quem tem tanto atrevimento de fazer-se adorar de seus pais. Estive numa grande povoação de cristãos10, traduzindo as orações da nossa língua para a sua e ensinando-lhas quatro meses.

6. Neste tempo, eram tantos os que me vinham procurar, para que fosse a suas casas rezar algumas orações sobre os enfermos, e outros que com as suas doenças vinham ter comigo que, só em rezar evangelhos sem ter outra ocupação, e em ensinar os jovens, baptizar, traduzir orações, satisfazer a perguntas, não me deixavam;

9 Estes ídolos descreve-os pormenorizadamente Manuel de Moraes, S.I. em 1547: «Seus santos a quem adoram e têm na sua igreja são cavalos de barro, e homens de pedra, e figuras de cobras de pedra, pavões, gralhas; e também adoram a montes de pedra e barro e areia que jazem pelos caminhos» (Doc. Indica I 245-246).
10 Tuticorim.
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e, além disso, em enterrar os que morriam. Era de tal maneira que, em corresponder à devoção dos que me levavam [a suas casas] ou vinham procurar-me, tinha ocupações demasiadas. Mas, para que não perdessem a fé, que à nossa religião e lei cristã tinham, não estava em meu poder negar tão santa procura. E, como a coisa ia em tão grande crescimento que a todos não podia atender, nem evitar paixões sobre a qual casa primeiro havia de ir, vista a devoção da gente, ordenei maneira que a todos pudesse satisfazer: mandava aos jovens, que sabiam as orações, que fossem [eles] às casas dos doentes, e que juntassem todos os de casa e vizinhos, e que dissessem [com] todos o Credo muitas vezes, dizendo ao doente que acreditasse e que sararia; e, depois, as outras orações. Desta maneira satisfazia a todos e fazia ensinar pelas casas e praças o Credo, Mandamentos e as outras orações. E, assim, aos doentes, pela fé dos de casa, vizinhos e sua própria, Deus Nosso Senhor lhes fazia muitas mercês, dando-lhes saúde espiritual e corporal. Usava Deus de muita misericórdia com os que adoeciam, pois pelas doenças os chamava e quase à força os atraía à fé.

7. Deixando neste lugar quem leve por diante o começado, vou visitando os outros lugares11, fazendo o mesmo. De maneira que, nestas partes, nunca faltam pias e santas ocupações. O fruto que se faz em baptizar as crianças que nascem, e em ensinar os que têm idade para isso, nunca vo-lo poderia acabar de escrever. Pelos lugares por onde passo, deixo as orações por escrito e, aos que sabem escrever, mando que as escrevam, e aprendam de cor, e as digam cada dia, dando ordem para que, aos domingos, se juntem todos a dizê-las. Para isso, deixo nos lugares quem fique com o encargo de o fazer.

11 As aldeias cristãs a norte de Tuticorim eram estas: Vaippâr, Chetupar, Vêmbâr. A sul, até Manapar (cf. Xavier-doc. 19,8). De Manapar para sul: Puducare, Periya Tâlai, Ovari, Kûttankuli, Idindakarai, Perumanal, Kûmari, Muttam, Kanniyâkumâri (Cabo de Comorim), Kovakulam, Râjakkamangalam, todas aldeias de paravas.
140 Aos Companheiros residentes em Roma 8. 

Muitos cristãos se deixam de fazer nestas partes, por não haver pessoas que em tão pias e santas coisas se ocupem. Muitas vezes me movem pensamentos de ir aos centros de estudos dessas partes – dando gritos, como alguém que tenha perdido o juízo – e principalmente à universidade de Paris, dizendo na Sorbona12 aos que têm mais letras que vontade, para dispor-se a frutificar com elas. Quantas almas deixam de ir para a glória e vão para o inferno, pela negligência deles! Se, assim como vão estudando em letras, estudassem na conta que Deus Nosso Senhor lhes pedirá delas e do talento que lhes deu, muitos deles se moveriam, tomando meios e Exercícios Espirituais para conhecer e sentir dentro, em suas almas, a vontade divina, conformando-se mais com ela que com as suas próprias afeições, dizendo: «Senhor, aqui estou. Que queres que eu faça? Envia-me aonde quiseres; e se convém, mesmo aos índios13». Quanto mais consolados viveriam, e com mais esperança da misericórdia divina à hora da morte, quando entrassem no Juízo particular a que ninguém pode escapar, alegando a seu favor: «Senhor, entregaste-me cinco talentos, eis aqui outros cinco que eu ganhei com eles!»14 Receio de que muitos dos que estudam nas universidades, estudem mais para, com as letras, alcançarem dignidades, benefícios, bispados, que com desejo de conformar-se com a necessidade que as dignidades e estados eclesiásticos requerem. É costume dizerem os que estudam: Desejo saber letras para alcançar algum benefício ou dignidade eclesiástica com elas e, depois, com a tal dignidade, servir a Deus. De maneira que, segundo as suas desordenadas afeições, fazem as suas eleições, temendo que Deus não queira o que eles querem, não consentindo as suas desordenadas afeições deixar na vontade de Deus Nosso Se-

12
O colégio da Sorbona, fundado em 1257, já então era o centro da universidade de Paris.
13 A propósito escrevia em 1558 o P. H. Henriques: «Sempre se pode fazer muito serviço a Deus, posto que sejam estas partes pelas quais a Cristo disse São Tomé: ‘envia-me aonde quiseres, mas não aos índios’» (Goa 8, 149r).
14 Mt 25,20.
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nhor esta eleição15. Estive quase movido a escrever à universidade de Paris, ao menos ao nosso Mestre de Cornibus16 e ao Doutor Picardo17, quantos mil milhares de gentios se fariam cristãos se houvesse operários, para que [lá] fossem solícitos em buscar e favorecer as pessoas que não buscam os seus próprios interesses mas os de Jesus Cristo18. É tão grande a multidão dos que se convertem à fé de Cristo, nesta terra onde ando, que, muitas vezes, me acontece sentir cansados os braços de baptizar; e não poder falar, de tantas vezes dizer o Credo e os Mandamentos, na sua língua, deles, e as outras orações, com uma exortação que sei na sua língua, na qual lhes declaro o que quer dizer cristão, e que coisa é paraíso, e que coisa inferno, dizendo-lhes quais são os que vão a um e quais a outro. Mais que todas as outras orações, digo-lhes muitas vezes o Credo e os Mandamentos. Há dia em que baptizo toda uma povoação e, nesta Costa onde ando, há trinta povoações de cristãos19.

15 Cf. Preâmbulo para fazer eleição nos Exercícios Espirituais de S. Inácio (MI, Exercitia 372-373).
16 Pedro de Cornibus, OFM, nascido em Beaune (Borgonha) por 1480, doutor pela universidade de Paris em 1524, mestre de Xavier, Fabro e Bobadilla, verdadeiro amigo da Companhia de Jesus, pregador eminente, faleceu em Paris em 1555 (VILLOSLADA, La Universidad de Paris 220 227 430; Fabri Mon. 99; Epp.Mixtae I 64).
17 Doutor Picardo Fraçois Le Picard), nascido em Paris em 1504, professor de Teologia em 1534, célebre pregador e doutor pela Sorbona, principal adversário dos reformadores, mestre de Xavier, Fabro e Bobadilla, sincero amigo da Companhia de Jesus, morreu com fama de santidade em Paris em 1556 (POLANCO, Chron I 94, 419; II 297; III 291; IV 323; V 332, 335; VI 486; E. DOUMERGUE, Jean Calvin , Lausanne 1899, I 240-241; VILLOSLADA, l.c. 431; MI, Epp. I 133; Bobad.Mon. 561; Epp. Mixtae I 64, 69, 582-583).
18 Fil 2,21.
19 As localidades cristãs da Costa da Pescaria já referidas por nós (cf. nota 11 e Xavier-doc. 19,8) somam 20. Podemos acrescentar outras localidades menores, como Pudukudi perto de Manapar, além de Pudukudi perto de Alentalai, duas aldeias de careas e a aldeia de Tomás da Mota perto de Kombuturê (Xavier-doc. 30,3; 39,5), talvez também Mukur perto de Vêmbâr e ainda, para o norte, as localidades de careas Periapattanam e Vêdâlaí (SCHURHAMMER, Die Bekehrung 266).
142 Aos Companheiros residentes em Roma 

O Governador desta Índia é muito amigo dos que se fazem cristãos. Fez mercê de 4.000 peças de ouro20 cada ano e, estas, para que apenas se gastem e dêem àquelas pessoas que, com muita diligência, ensinam a doutrina cristã nos lugares dos recém-convertidos à fé. É muito amigo de todos os da nossa Companhia. Deseja muito que venham a estas partes alguns da nossa Companhia, e assim me parece que o escreve ao Rei.

9. No ano passado, escrevi21 acerca de um colégio, que se está a fazer na cidade de Goa, no qual há já muitos estudantes. São de diversas línguas, e todos de geração de infiéis. Entre eles, internos no colégio, onde há muitos edifícios feitos, há muitos que aprendem latim e, outros, a ler e escrever. Micer Paulo está com estes estudantes do colégio: diz-lhes Missa todos os dias, e confessa-os, e nunca deixa de dar-lhes doutrina espiritual. Tem [também] o encargo das coisas corporais de que têm necessidade os estudantes. Este colégio é muito grande: nele podem viver mais de quinhentos estudantes. Tem rendas suficientes para os manter: são muitas as esmolas que a este colégio se fazem, e o Governador favorece-o largamente. É caso para todos os cristãos darem graças a Deus Nosso Senhor pela fundação desta casa, que se chama o Colégio da Santa Fé. Antes de muitos anos, espero da misericórdia de Deus Nosso Senhor que o número de cristãos se há-de multiplicar grandemente e as fronteiras da Igreja se hão-de ampliar por meio dos que neste santo colégio estudam.

10. Há nestas partes, entre os gentios, uma classe a que chamam brâmanes: estes mantêm toda a gentilidade. Têm o encargo das casas20. Estas peças de ouro eram fanões, moedas muito miúdas, em uso na Pescaria e norte de Ceilão. Dez fanões equivaliam a 1 xerafim de ouro = 1 pardau de prata = 300 reis. Portanto, no tempo de Xavier, 4.000 fanões valiam 400 xerafins de ouro = 400 pardaus de prata = 210 cruzados. Era o tributo dos paravas para ao «chapins da rainha». Com o andar dos anos, os pardaus e os cruzados foram perdendo valor, enquanto o dos fanões se manteve invariável naquela região. Por isso não admira que Lucena, no seu tempo (ano 1600), calcule 4.000 fanões = 400 cruzados.
21 Xavier-doc. 16.
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onde estão os ídolos: é a gente mais perversa do mundo. Destes se percebe o que diz o Salmo: «Da gente não santa, do homem iníquo e fraudulento, livra-me, Senhor»22. É gente que nunca diz a verdade. Está sempre a pensar como há-de subtilmente mentir e enganar os pobres simples e ignorantes, dizendo que os ídolos pedem que lhes levem, para oferecer, certas coisas; mas estas não são outras senão as que os brâmanes fingem e querem para manter as suas mulheres, filhos e casas. Fazem crer à gente simples que os ídolos comem; e há muitas pessoas que, mesmo que não almocem nem jantem, oferecem certa moeda23 para o ídolo. Duas vezes ao dia, com grande festa de atabales, comem, dando a entender aos pobres que são ídolos que estão a comer. Quando começa a faltar o necessário aos brâmanes, dizem ao povo que os ídolos estão muito zangados com ele, porque não lhes leva as coisas que, por eles, lhes mandam pedir; e que, se não lhas fornecem, tenham cuidado com eles, pois os hão-de matar, ou dar-lhes doenças, ou lhes hão-de mandar os demónios a suas casas. E os tristes simples, crendo que será assim, de medo que os ídolos lhes façam mal, fazem o que os brâmanes querem.

11. São, estes brâmanes, homens de poucas letras24; e, o que lhes falta em virtude, têm de iniquidade e maldade em grande aumento. Aos brâmanes desta Costa onde ando, pesa-lhes muito que eu nunca outra coisa faça senão descobrir as suas maldades. Eles confessam-me a verdade, quando estamos a sós, de como enganam o povo: confessam-me, em segredo, que não têm outro património senão aqueles ídolos de pedra, dos quais vivem, fingindo mentiras.
Têm estes brâmanes para si, que eu sei mais que todos eles juntos. Mandam-me visitar, e pesa-lhes muito que eu não queira aceitar os presentes que me mandam. Tudo isto fazem, para que eu não

22 Ps 42,1.
23 Fanão.
24 Os brâmanes instruídos da região mais interior, por ex. os do Maduré, entre os quais trabalhou o Padre De Nobili mais tarde, não os conheceu Xavier.

144 Aos Companheiros residentes em Roma descubra os seus segredos, dizendo-me que eles bem sabem que não há senão um Deus, e que eles rezarão por mim. Em paga de tudo isto digo-lhes, da minha parte, o que me parece. Depois, aos tristes simples que, por puro medo, são seus devotos, manifesto-lhes os seus enganos e burlas, até cansar. Muitos, pelo que lhes digo, perdem a devoção ao demónio e fazem-se cristãos. Se não houvesse brâmanes, todos os gentios se converteriam à nossa fé. As casas onde estão os ídolos e brâmanes, chamam-se pagodes.
Todos os gentios destas partes sabem muito poucas letras; para mal, sabem muito. Só um brâmane, desde que estou nestas partes, fiz cristão: é jovem e muito bom homem. Tomou por ofício ensinar aos jovens a doutrina cristã.
Ao visitar os lugares de cristãos, passo por muitos pagodes. Uma vez passei por um, onde havia mais de duzentos brâmanes25, e vieram-me ver. Entre outras muitas coisas de que falamos, pus-lhes uma questão, e era: que me dissessem que é que os seus deuses e ídolos, a quem adoravam, lhes mandavam fazer para ir para a glória. Foi grande a contenda entre eles sobre quem me responderia. Disseram a um dos mais antigos que respondesse. O velho, que tinha mais de oitenta anos, disse-me que lhe dissesse eu primeiro o que mandava o Deus dos cristãos fazer. Eu, percebendo a sua ruindade, não quis dizer coisa alguma antes de ser ele a dizer. Então foi-lhe forçado manifestar as suas ignorâncias. Respondeu-me que duas coisas lhes mandavam fazer os seus deuses para ir para onde eles estão: a primeira era não matar vacas, as quais eles adoram; e a segunda era dar esmolas, e estas aos brâmanes que servem os pagodes. Ouvida esta resposta, com pena de os demónios escravizarem os nossos próximos de tamanha maneira, a ponto de em lugar de Deus se fazerem adorar deles, levantei-me, dizendo aos brâmanes que ficassem sentados e, a grandes vozes, disse o Credo e os Mandamentos da lei na língua deles,


25 Parece referir-se ao pagode de Trichendur, a que acorriam peregrinos de toda a parte.
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fazendo alguma detenção em cada Mandamento. Acabados os mandamentos, fiz-lhes uma exortação na língua deles, explicando-lhes que coisa é paraíso e que coisa é inferno, e dizendo-lhes quem vai para um e quem para outro. Depois de acabada esta prática, levantaram-se todos os brâmanes e deram-me grandes abraços, dizendo-me que verdadeiramente o Deus dos cristãos é o verdadeiro Deus, pois os seus Mandamentos são tão conformes a toda a razão natural.

Perguntaram-me se a nossa alma juntamente com o corpo morria, como a alma dos brutos animais. Deu-me Deus Nosso Senhor tais razões, conformes às suas capacidades, que lhes fiz entender claramente a imortalidade das almas, coisa de que eles mostraram muito prazer e contentamento. As razões, que a esta gente idiota se hão-de dar, não hão-de ser tão subtis como as que se encontram escritas em doutores muito escolásticos. Perguntaram-me por onde saía a alma, quando um homem morria; e quando um homem dormia e sonhava estar numa terra com os seus amigos e conhecidos [como a mim muitas vezes me acontece estar convosco, caríssimos], se a sua alma ia até lá, deixando de informar o corpo. E mais me pediram: que lhes dissesse se Deus é branco ou negro26, dada a diversidade de cores que vêem nos homens. Como os desta terra são negros, parecendo-lhes bem a sua cor, dizem que é negro. Por isso a maioria dos ídolos são negros: untam-nos muitas vezes com azeite; cheiram tão mal que é coisa de espanto; são tão feios que, ao vê-los, espantam. A todas as perguntas que me fizeram os satisfiz, a parecer deles. Mas, quando com eles chegava a conclusão de que se fizessem cristãos, pois já conheciam a verdade, respondiam o que muitos entre nós costumam responder: Que dirá o mundo de nós, se esta mudança de estado fazemos no nosso modo de viver? E outras tentações em pensar que lhes venha a faltar o necessário.

26 Os indianos distinguem deuses negros e brancos; assim, Vishnu pintam-no de negro e a Shiva de branco.
146 Aos Companheiros residentes em Roma 12. 

Um só brâmane encontrei num lugar desta Costa, que sabia alguma coisa, porque, me diziam, tinha estudado num centro de estudos de nomeada. Procurei encontrar-me com ele e consegui maneira de nos vermos. Disse-me ele, em grande segredo, que a primeira coisa que fazem os que ensinam naquele centro de estudos, é ter juramento dos que vão aprender, de nunca dizer certos segredos que ensinam. Mas a mim, este brâmane, disse-me esses segredos em grande segredo, por alguma amizade que comigo tinha. Um dos segredos era este: que nunca dissessem que há um só Deus, criador do céu e da terra e que está nos céus; e que ele adorasse esse Deus e não os ídolos, que são demónios. Têm algumas escrituras, nas quais têm os mandamentos. A língua que naquele centro de estudos ensinam, é entre eles como o latim entre nós27. Disse-me muito bem os mandamentos, cada um deles com uma boa explicação. Guardam os domingos, estes que são sábios, coisa para não se poder crer. Não dizem outra oração, aos domingos, senão esta, e muitas vezes: «Om cirii naraina noma»28, que quer dizer: «Adoro-te, Deus, com a tua graça e ajuda para sempre»29. Esta oração dizem-na muito de passo e baixo, para guardar o juramento que fazem. Disse-me que lhes proibia, a lei natural, ter muitas mulheres; e que está nas suas escrituras que há-de vir tempo em que todos hão-de viver debaixo da mesma lei. Disse-me mais, este brâmane: que ensinam, naquele centro de estudos, muitos encantamentos30.

27 Língua sânscrito.
28 Om Srî Narâyana namah, invocação comum dos brâmanes da seita Vishnu.
29 Mais exactamente: Om (nome místico secreto da suma deidade), Srî (santo), Narâyana (nome de Vishnu repousando sobre o mar), namah (adoração), isto é, «Om! Salvè, santo Narâyana!». Não confundir esta oração com a chamada Gâyatrî (cf. DALGADO I 413).
30 Ao que parece, este brâmane pertencia à seita Mâdhva que, em tempo de Xavier, florescia na corte vijayanagarensi e sobretudo na corte de Sevvappa Nayaka (na região de Tanjaore) a que estava sujeito Negapatam (HERAS 514-515; 521--522). Tinha muitos seguidores na região tamulica (ib. 531). A sua doutrina era a seguinte: há um deus, Vishnu, (mas também as almas e a matéria são eternas).

Doc. 20 – 15 de Janeiro de 1544 147


Pediu-me que lhe dissesse as coisas mais importantes que os cristãos têm na sua lei, que ele me prometia não as descobrir a ninguém. Eu respondi-lhe que não lhas diria se, primeiro, não me prometesse não guardar em segredo as coisas mais importantes que, da lei dos cristãos, eu lhe dissesse. E logo ele me prometeu publicar tudo. Então disse-lhe e expliquei-lhe, muito a meu prazer, estas palavras importantes da nossa lei: «O que crer e for baptizado será salvo»31. Escreveu-as na sua língua, com a explicação delas em que lhe disse todo o Credo. Na explicação, acrescentei os Mandamentos, pela conformidade que há entre eles e o Credo. Disse-me que numa noite sonhou, com muito prazer e alegria, que havia de ser cristão, e que havia de ser meu companheiro e andar comigo. Pediu-me que o fizesse cristão oculto e com mais certas condições que, por não serem honestas e lícitas, deixei de o fazer. Espero em Deus que o há-de ser, sem nenhuma delas. Tenho-lhe dito que ensinem a gente simples a adorar um só Deus, criador do céu e da terra e que está nos céus; ele, pelo juramento que fez, receoso de que o demónio o mate, não o quer fazer.

13. Destas partes, não sei que mais escrever-vos, a não ser que são tantas as consolações que Deus Nosso Senhor comunica aos que andam entre estes gentios a convertê-los à fé de Cristo, que, se contentamento há nesta vida, se pode dizer que é este. Muitas vezes me acontece ouvir dizer a uma pessoa que anda entre estes cristãos: «Ó Senhor, não me deis muitas consolações nesta vida32; ou, já que as dais por vossa infinita bondade e misericórdia, levai-me para a Vishnu é o formador do mundo. Os outros ídolos, ou são diabos ou revelações de Vishnu, e todos servos de Vishnu. Os mandamentos, segundo eles, são dez, e a sua oração é a já mencionada. (cf. H. VON GLASENAPP, Madhva’s Philosophie des Vishnu-Glaubens, Bonn 1923, 38; 44; 46-51; 66-75; 85-86. Encyclopedia of Religion and Ethics VIII 232-235).
31 Mc 16,16.
32 Cf. a exclamação tantas vezes atribuída a Xavier: «Basta, Senhor, basta!» (MX II 950).

148 Aos Companheiros residentes em Roma vossa santa glória, pois dá tanta pena viver sem ver-vos, depois de tanto vos comunicardes interiormente às criaturas». Oh, se os que estudam letras, tantos trabalhos pusessem em ajudar-se para sentir o gosto delas, como noites e dias trabalhosos suportam para as aprender! Oh, se aqueles contentamentos que um estudante busca em entender o que estuda, os buscasse em dar a sentir aos próximos o que lhes é necessário para conhecer e servir a Deus, quanto mais consolados e aparelhados se achariam para dar conta, quando Cristo lhes perguntasse: «Dá-me conta da tua administração»33!

14. As recreações que nestas partes tenho, são as de recordar--me muitas vezes de vós, caríssimos Irmãos meus, e dos tempos em que pela muita misericórdia de Deus Nosso Senhor vos conheci e convosco tratei, conhecendo em mim e sentindo dentro, em minha alma, quanto por minha culpa perdi do tempo em que convosco tratei, por não ter-me aproveitado dos muitos conhecimentos que Deus Nosso Senhor de si vos tem comunicado. Faz-me Deus tanta mercê, por vossas orações e lembrança contínua que de mim tendes em encomendar-me a Ele, que em vossa ausência corporal reconheço que Deus Nosso Senhor, graças ao vosso favor e ajuda, me dá a sentir a minha infinita multidão de pecados, e me dá forças para andar entre infiéis; disto dou graças a Deus Nosso Senhor, muitas, e a vós, caríssimos Irmãos meus. Entre muitas mercês, que Deus Nosso Senhor nesta vida me tem feito e faz todos os dias, esta é uma: que em meus dias vi o que tanto desejei, que foi a confirmação da nossa regra e modo de viver34. Graças sejam dadas a Deus Nosso Senhor para sempre, pois teve por bem manifestar publicamente o que no íntimo, ao seu servo Inácio e Pai nosso, deu a sentir.
No ano passado escrevi-vos35 o número de Missas que, nestas partes das Índias, pelo Rvmº cardeal Guidacion, dissemos, Micer Paulo

33 Lc 16,2.
34 Cf. Xavier-doc. 12,6.
35 Cf. Xavier-doc. 12,1.
Doc. 20 – 15 de Janeiro de 1544 149

e eu: as que, desde então para cá dissemos, não sei o número delas, mas crede que todas as nossas missas são por ele. Para consolação nossa, fazei-nos saber quanto se assinala no serviço a Deus S.S.Rmª, e também para acrescentar-nos a devoção, a Micer Paulo e a mim, de sermos perpétuos capelães seus. Não deixeis de escrever-nos do fruto que na Igreja faz.
Termino, rogando a Deus Nosso Senhor que, já que por sua misericórdia nos juntou e por seu serviço nos separou para tão longe uns dos outros, nos torne a juntar na sua santa glória.

15. E para alcançar esta mercê e graça, tomemos por intercessores e advogados todas aquelas santas almas destas terras onde ando, que, depois que por minha mão baptizei, antes de perderem o estado de inocência Deus Nosso Senhor levou para a sua santa glória, cujo número creio que passa de mil. A todas estas santas almas rogo que nos alcancem de Deus esta graça: que em todo o tempo que estivermos neste desterro, sintamos no íntimo das nossas almas sua santíssima vontade e essa perfeitamente cumpramos.

De Cochim, a 15 de Janeiro, ano de 1544
Vosso caríssimo em Cristo irmão
FRANCISCO



AVE AVE AVE MARIA!

*** Discorso della Montagna: il dono della Grazia e le beatitudini. Solennità di Tutti I Santi: San Matteo, 5, 1-12.

Bartolome Esteban Murillo XVI-XVII.jpg 

170. Secondo discorso della Montagna: il dono della Grazia e le beatitudini.


Gesù parla agli apostoli mettendoli ognuno al loro posto per dirigere e sorvegliare la folla, che sale fin dalle
prime ore del mattino con malati portati a braccio o in barella o trascinantisi sulle grucce. Fra la gente è
Stefano ed Erma. L'aria è tersa e un poco freschetta, ma il sole tempera presto questo frizzare di aria
montanina che, rendendo mite il sole, se ne avvantaggia però, facendosi di una purezza fresca ma non rigida.
La gente si siede sui sassi e pietroni che sono sparsi nella valletta fra le due cime, altri attendono che il sole
asciughi l'erba rugiadosa per sedersi sul suolo. E’ molta la gente e di tutte le plaghe palestinesi e di tutte le
condizioni. Gli apostoli si sperdono nella moltitudine ma, come api che vanno e vengono dai prati all'alveare,
ogni tanto tornano presso il Maestro per riferire, per chiedere, per il piacere di essere guardati da vicino dal
Maestro. Gesù sale un poco più in alto del prato che è il fondo della valletta, addossandosi alla parete, e
inizia a parlare.
«Molti mi hanno chiesto, durante un'annata di predicazione: "Ma Tu, che ti dici il Figlio di Dio, dicci cosa è
il Cielo, cosa il Regno, cosa è Dio. Perché noi abbiamo idee confuse. Sappiamo che vi è il Cielo con Dio e
con gli angeli. Ma nessuno è mai venuto a dirci come è, essendo chiuso ai giusti". Mi hanno chiesto anche
cosa è il Regno e cosa è Dio. Ed Io mi sono sforzato di spiegarvi cosa è il Regno e cosa è Dio. Sforzato non
perché mi fosse difficile a spiegarmi, ma perché è difficile, per un complesso di cose, farvi accettare la verità
che urta, per quanto è il Regno, contro tutto un edificio di idee venute nei secoli e, per quanto è Dio, contro
la sublimità della sua Natura. Altri ancora mi hanno chiesto: "Va bene. Questo è il Regno e questo è Dio. Ma
come si conquistano questo e quello?". Anche qui Io ho cercato di spiegarvi, senza stanchezze, l'anima vera
della Legge del Sinai. Chi fa sua quell'anima fa suo il Cielo. Ma per spiegarvi la Legge del Sinai bisogna
anche far sentire il tuono forte del Legislatore e del suo Profeta, i quali, se promettono benedizioni agli
osservanti, minacciano tremende pene e maledizioni ai disubbidienti. La epifania del Sinai fu tremenda e la
sua terribilità si riflette in tutta la Legge, si riflette su tutti i secoli, si riflette su tutte le anime. Ma Dio non è
solo Legislatore. Dio è Padre. E Padre di immensa bontà. Forse, e senza forse, le vostre anime, indebolite dal
peccato d'origine, dalle passioni, dai peccati, da molti egoismi vostri e altrui - facendovi gli altrui un'anima
irritata, i vostri un'anima chiusa - non possono elevarsi a contemplare le infinite perfezioni di Dio, meno di
ogni altra la bontà, perché è la virtù che con l'amore è meno dote dei mortali. La bontà! Oh! dolce essere
buoni, senza odio, senza invidie, senza superbie! Avere occhi che solo guardano per amare, e mani che si
tendono a gesto d'amore, e labbra che non profferiscono che parole d'amore, e cuore, cuore soprattutto che
colmo unicamente d'amore sforza occhi, mani e labbra ad atti d'amore! I più dotti fra voi sanno di quali doni
Dio aveva fatto ricco Adamo, per sé e per i suoi discendenti. Anche i più ignoranti fra i figli d'Israele sanno
che in noi vi è lo spirito. Solo i poveri pagani lo ignorano questo ospite regale, questo soffio vitale, questa
luce celeste che santifica e vivifica il nostro corpo. Ma i più dotti sanno quali doni erano stati dati all'uomo,
allo spirito dell'uomo. Non fu meno munifico allo spirito che alla carne e al sangue della creatura da Lui fatta
con poco fango e col suo alito. E come dette i doni naturali di bellezza e integrità, di intelligenza e di
volontà, di capacità di amarsi e di amare, così dette i doni morali con la soggezione del senso alla ragione, di
modo che nella libertà e padronanza di sé e della propria volontà, di cui Dio aveva beneficato Adamo, non si
insinuava la malvagia prigionia dei sensi e delle passioni, ma libero era l'amarsi, libero il volere, libero il godere in giustizia, senza quello che fa schiavi voi facendovi sentire il mordente di questo veleno che Satana sparse e che rigurgita, portandovi fuor dell'alveo limpido su campi fangosi, in putrefacenti stagni, dove fermentano le febbri dei sensi carnali e dei sensi morali. Perché sappiate che è senso anche la concupiscenza
del pensiero. Ed ebbero doni soprannaturali, ossia la Grazia santificante, il destino superiore, la visione di Dio. La Grazia santificante: la vita dell'anima. Quella spiritualissima cosa deposta nella spirituale animanostra. La Grazia che ci fa figli di Dio perché ci preserva dalla morte del peccato, e chi morto non è "vive"
nella casa del Padre: il Paradiso; nel regno mio: il Cielo. Cosa è questa Grazia che santifica e che dà Vita e
Regno? Oh! non usate molte parole! La Grazia è amore. La Grazia è, perciò, Dio. E Dio che ammirando Se
stesso nella creatura creata perfetta si ama, si contempla, si desidera, si dà ciò che è suo per moltiplicare
questo suo avere, per bearsi di questo moltiplicarsi, per amarsi per quanti sono altri Se stesso. Oh! figli! Non
defraudate Dio di questo suo diritto! Non derubate Dio di questo suo avere! Non deludete Dio in questo suo
desiderio! Pensate che Egli opera per amore. Se anche voi non foste, Egli sarebbe sempre l'Infinito, né
sarebbe sminuita la sua potenza. Ma Egli, pur essendo completo nella sua misura infinita, immisurabile,
vuole non per Sé e in Sé - non lo potrebbe perché è già l'Infinito - ma per il Creato, sua creatura, Egli vuole
aumentare l'amore per quanto esso Creato di creature contiene, onde vi dà la Grazia: l'Amore, perché voi in
voi lo portiate alla perfezione dei santi, e riversiate questo tesoro, tratto dal tesoro che Dio vi ha dato con la
sua Grazia e aumentato di tutte le vostre opere sante, di tutta la vostra vita eroica di santi, nell'Oceano
infinito dove Dio è: nel Cielo. Divine, divine, divine cisterne dell'Amore! Voi siete, né vi è data al vostro
essere morte, perché siete eterne come Dio, dio essendo. Voi sarete, né vi sarà data al vostro essere termine,
perché immortali come gli spiriti santi che vi hanno supernutrite, tornando in voi arricchiti dei propri meriti.
Voi vivete e nutrite, voi vivete e arricchite, voi vivete e formate quella santissima cosa che è la Comunione
degli spiriti, da Dio, Spirito perfettissimo, al piccolo pargolo testé nato, che poppa per la prima volta il
materno seno. Non criticatemi in cuor vostro, o dotti! Non dite: "Costui è folle, Costui è menzognero! Perché
come folle parla dicendo la Grazia in noi, privi di essa per la Colpa. Perché mente dicendoci già uni con
Dio". Sì, la Colpa è; sì, la separazione è. Ma davanti al potere del Redentore, la Colpa, separazione crudele
sorta fra il Padre e i figli, crollerà come muraglia scossa dal nuovo Sansone; già Io l'ho afferrata e la scrollo
ed essa vacilla, e Satana trema d'ira e di impotenza non potendo nulla contro il mio potere e sentendosi
strappare tanta preda e farsi più difficile il trascinare l'uomo al peccato. Perché quando Io vi avrò, attraverso
di Me, portato al Padre mio, e nel filtrare dal mio Sangue e dal mio dolore voi sarete divenuti mondi e forti,
tornerà viva, desta, potente la Grazia in voi, e voi sarete i trionfatori, se lo vorrete. Non vi violenta Iddio nel
pensiero e neppure nella santificazione. Voi siete liberi. Ma vi rende la forza. Vi rende la libertà sull'impero
di Satana. A voi riporvi il giogo infernale o mettere all'anima le ali angeliche. Tutto a voi, con Me a fratello
per guidarvi e nutrirvi del cibo immortale. "Come si conquista Iddio e il suo Regno attraverso altra più dolce
via che non la severa del Sinai?" voi dite. Non vi è altra via. Quella è. Ma però guardiamola non attraverso il
colore della minaccia, ma attraverso il colore dell'amore. Non diciamo: "Guai se non farò questo!"
rimanendo tremanti in attesa di peccare, di non essere capaci di non peccare. Ma diciamo: "Beato me se farò
questo!" e con slancio di soprannaturale gioia, giubilando, lanciamoci verso queste beatitudini, nate
dall'osservanza della Legge come corolle di rose da un cespuglio di spine.

1-Beato me se sarò povero di spirito perché mio allora è il Regno dei Cieli!
2-Beato me se sarò mansueto perché erediterò la Terra!
3-Beato me se sarò capace di piangere senza ribellione perché sarò consolato!
4-Beato me se più del pane e del vino per saziare la carne avrò fame e sete di giustizia. La Giustizia mi
sazierà! Beato me se sarò misericordioso perché mi sarà usata divina misericordia!
5-Beato me se sarò puro di cuore perché Dio si piegherà sul mio cuore puro ed io lo vedrò!
6-Beato me se avrò spirito di pace perché sarò da Dio chiamato suo figlio, perché nella pace è l'amore, e Dio
è Amore che ama chi è simile a Lui!
7-Beato me se per fedeltà alla giustizia sarò perseguitato, perché a compensarmi delle terrene persecuzioni
Dio, mio Padre, mi darà il Regno dei Cieli!
8-Beato me se sarò oltraggiato e accusato bugiardamente per saper essere tuo figlio, o Dio! Non desolazione
ma gioia mi deve venire da questo, perché questo mi uguaglia ai tuoi servi migliori, ai Profeti, per la stessa
ragione perseguitati, e coi quali io credo fermamente di condividere la stessa ricompensa grande, eterna, nel
Cielo che è mio! Guardiamo così la via della salute. Attraverso la gioia dei santi.

(1) Beato me se sarò povero di spirito Oh! delle ricchezze, arsura satanica, a quanti deliri tu porti! Nei ricchi,
nei poveri. Il ricco che vive per il suo oro: l'idolo infame del suo spirito rovinato. Il povero che vive dell'odio
al ricco perché egli ha l'oro, e se anche non fa materiale omicidio lancia i suoi anatema sul capo dei ricchi,
desiderando loro male d'ogni sorta. Il male non basta non farlo, bisogna anche non desiderare di farlo. Colui
che maledice augurando sciagure e morti non è molto dissimile da colui che materialmente uccide, poiché ha
in lui il desiderio di veder perire colui che odia. In verità vi dico che il desiderio non è che un atto trattenuto,
come un concepito da ventre già formato ma non ancora espulso. Il desiderio malvagio avvelena e guasta,
poiché permane più a lungo dell'atto violento, più in profondità dell'atto stesso. Il povero di spirito se è ricco
non pecca per l'oro, ma del suo oro fa la sua santificazione poiché ne fa amore. Amato e benedetto, egli è
simile a quelle sorgive che salvano nei deserti e che si danno, senza avarizia, liete di potersi dare per
sollevare le disperazioni. Se è povero, è lieto nella sua povertà, e mangia il suo pane dolce della ilarità del
libero dall'arsione dell'oro, e dorme il suo sonno scevro da incubi, e sorge riposato al suo sereno lavoro che
pare sempre leggero se viene fatto senza avidità e invidia. Le cose che fanno ricco l'uomo sono l'oro come
materia, gli affetti come morale. Nell'oro sono comprese non solo le monete ma anche le case, i campi, i
gioielli, i mobili, le mandre, tutto quanto insomma fa materialmente doviziosa la vita. Nelle affezioni: i
legami di sangue o di coniugio, le amicizie, le dovizie intellettuali, le cariche pubbliche. Come vedete, se per
la prima categoria il povero può dire: " Oh! per me! Basta che io non invidi chi ha e poi sono a posto perché
io sono povero e perciò a posto per forza ", per la seconda anche il povero ha da sorvegliarsi, potendo, anche
il più miserabile fra gli uomini, divenire peccaminosamente ricco di spirito. Colui che si affeziona
smoderatamente ad una cosa, ecco che pecca. Voi direte: "Ma allora dobbiamo odiare il bene che Dio ci ha
concesso? Ma allora perché comanda di amare il padre e la madre, la sposa, i figli, e dice: 'Amerai il tuo
prossimo come te stesso? Distinguete. Amare dobbiamo il padre e la madre e la sposa e il prossimo, ma nella
misura che Dio ha dato: " come noi stessi ". Mentre Dio va amato sopra ogni cosa e con tutti noi stessi. Non
amare Dio come amiamo fra il prossimo i più cari, questa perché ci ha allattato, l'altra perché dorme sul
nostro petto e ci procrea i figli, ma amarlo con tutti noi stessi, ossia con tutta la capacità di amare che è
nell'uomo: amore di figlio, amore di sposo, amore di amico e, oh! non vi scandalizzate! e amore di padre. Sì,
per l'interesse di Dio dobbiamo avere la stessa cura che un padre ha per la sua prole, per la quale con amore
tutela le sostanze e le accresce, e si occupa e preoccupa della sua crescita fisica e culturale e della sua riuscita
nel mondo. L'amore non è un male e non lo deve divenire. Le grazie che Dio ci concede non sono un male e
non lo devono divenire. Amore sono. Per amore sono date. Occorre con amore usarne di queste ricchezze
che Dio ci concede in affetti e in bene. E solo chi non se ne fa degli idoli ma dei mezzi per servire in santità
Dio, mostra di non avere un attaccamento peccaminoso ad esse. Pratica allora la santa povertà dello spirito,
che di tutto si spoglia per essere più libero di conquistare Iddio santo, suprema Ricchezza. Conquistare Dio,
ossia avere il Regno dei Cieli.

(2) Beato me se sarò mansueto. Ciò può parere in contrasto con gli esempi della vita giornaliera. I non
mansueti sembrano trionfare nelle famiglie, nelle città, nelle nazioni. Ma è vero trionfo? No. E’ paura che
tiene apparentemente proni i soverchiati dal despota, ma che in realtà non è che velo messo sul ribollire di
ribellione contro il tiranno. Non possiedono i cuori dei famigliari, né dei concittadini, né dei sudditi, coloro
che sono iracondi e prepotenti. Non piegano intelletti e spiriti alle loro dottrine quei maestri del "ho detto e
ho detto". Ma solo creano degli autodidatti, dei ricercatori di una chiave atta ad aprire le porte chiuse di una
sapienza o di una scienza che essi sentono essere e che è opposta a quella che viene loro imposta. Non
portano a Dio quei sacerdoti che non vanno alla conquista degli spiriti con la dolcezza paziente, umile,
amorosa, ma sembrano guerrieri armati che si lancino ad un assalto feroce tanto marciano con irruenza e
intransigenza contro le anime... Oh! povere anime! Se fossero sante non avrebbero bisogno di voi, sacerdoti,
per raggiungere la Luce. L'avrebbero già in sé. Se fossero giusti non avrebbero bisogno di voi giudici per
essere tenuti nel freno della giustizia, l'avrebbero già in se. Se fossero sani non avrebbero bisogno di chi cura.
Siate dunque mansueti. Non mettete in fuga le anime. Attiratele con l'amore. Perché la mansuetudine è
amore, così come lo è la povertà di spirito. Se tali sarete erediterete la Terra e porterete a Dio questo luogo,
già prima di Satana, perché la vostra mansuetudine, che oltre che amore è umiltà, avrà vinto l'odio e la
superbia uccidendo negli animi il re abbietto della superbia e dell'odio, e il mondo sarà vostro, ossia di Dio,
perché voi sarete giusti che riconoscerete Dio come Padrone assoluto del creato, al Quale va dato lode e
benedizione e reso tutto quanto è suo.

(3) Beato me se saprò piangere senza ribellione. Il dolore è sulla terra. E il dolore strappa lacrime all'uomo. Il dolore non era. Ma l'uomo lo mise sulla terra e per una depravazione del suo intelletto si studia di sempre più
aumentarlo, con tutti i modi. Oltre le malattie e le sventure conseguenti da fulmini, tempeste, valanghe, terremoti, ecco che l'uomo per soffrire, e per far soffrire soprattutto - perché vorremmo solo che gli altri soffrissero, e non noi, dei mezzi studiati per far soffrire - ecco che l'uomo escogita le armi micidiali sempre più tremende e le durezze morali sempre più astute. Quante lacrime l'uomo trae all'uomo per istigazione del
suo segreto re che è Satana! Eppure in verità vi dico che queste lacrime non sono una menomazione ma una perfezione dell'uomo. L'uomo è uno svagato bambino, è uno spensierato superficiale, è un nato di tardivo
intelletto finché il pianto non lo fa adulto, riflessivo, intelligente. Solo coloro che piangono, o che hanno pianto, sanno amare e capire. Amare i fratelli ugualmente piangenti, capirli nei loro dolori, aiutarli colla loro bontà, esperta di come fa male essere soli nel pianto. E sanno amare Dio perché hanno compreso che tutto è
dolore fuorché Dio, perché hanno compreso che il dolore si placa se pianto sul cuore di Dio, perché hanno
compreso che il pianto rassegnato che non spezza la fede, che non inaridisce la preghiera, che è vergine di
ribellione, muta natura, e da dolore diviene consolazione. Sì. Coloro che piangono amando il Signore
saranno consolati.

(4) Beato me se avrò fame e sete di giustizia. Dal momento che nasce al momento che muore l'uomo tende avido al cibo. Apre la bocca alla nascita per afferrare il capezzolo, apre le labbra per inghiottire ristoro nelle
strette dell'agonia. Lavora per nutrirsi. Fa della terra un enorme capezzolo dal quale insaziabilmente succhia,
succhia per ciò che muore. Ma che è l'uomo? Un animale? No, è un figlio di Dio. In esilio per pochi o molti anni. Ma non cessa la sua vita col mutare della sua dimora. Vi è una vita nella vita così come in una noce vi è il gheriglio. Non è il guscio la noce, ma è l'interno gheriglio che è la noce. Se seminate un guscio di noce non
nasce nulla, ma se seminate il guscio con la polpa nasce grande albero. Così è l'uomo. Non è la carne che diviene immortale, è l'anima. E va nutrita per portarla all'immortalità, alla quale, per amore, essa poi porterà la carne nella risurrezione beata. Nutrimento dell'anima è la Sapienza, è la Giustizia. Come liquido e cibo esse vengono aspirate e corroborano, e più se ne gusta e più cresce la santa avidità del possedere la Sapienza
e di conoscere la Giustizia. Ma verrà pure un giorno in cui l'anima insaziabile di questa santa fame sarà saziata. Verrà. Dio si darà al suo nato, se lo attaccherà direttamente al seno e il nato al Paradiso si sazierà della Madre ammirabile che è Dio stesso, e non conoscerà mai più fame, ma si riposerà beato sul seno divino. Nessuna scienza umana equivale a questa divina. La curiosità della mente può essere appagata, ma la necessità dello spirito no. Anzi nella diversità del sapore lo spirito prova disgusto e torce la bocca dall'amaro
capezzolo, preferendo soffrire la fame all'empirsi di un cibo che non sia venuto da Dio. Non abbiate timore, o sitibondi, o affamati di Dio! Siate fedeli e sarete saziati da Colui che vi ama.

(5) Beato me se sarò misericordioso. Chi fra gli uomini può dire: "Io non ho bisogno di misericordia "? Nessuno. Ora se anche nell'antica Legge è detto: "Occhio per occhio e dente per dente ", perché non deve
dirsi nella nuova: " Chi sarà stato misericordioso troverà misericordia"? Tutti hanno bisogno di perdono.
Ebbene, non è la formula e la forma di un rito, figure esterne concesse per la opaca mentalità umana, quelle
che ottengono perdono. Ma è il rito interno dell'amore, ossia ancora della misericordia. Che se fu imposto il
sacrificio di un capro o di un agnello e l'offerta di qualche moneta, ciò fu fatto perché a base di ogni male
ancora si trovano sempre due radici: l'avidità e la superbia. L'avidità è punita con la spesa dell'acquisto dell'offerta, la superbia con la palese confessione di quel rito: "Io celebro questo sacrificio perché ho peccato". E fatto anche per precorrere i tempi e i segni dei tempi, e nel sangue che si sparge è la figura del Sangue che sarà sparso per cancellare i peccati degli uomini. Beato dunque colui che sa essere misericordioso agli affamati, ai nudi, ai senza tetto, ai miseri delle ancor più grandi miserie che sono quelle del possedere cattivi caratteri che fanno soffrire chi li ha e chi con loro convive. Abbiate misericordia.
Perdonate, compatite, soccorrete, istruite, sorreggete. Non chiudetevi in una torre di cristallo dicendo: "Io sono puro e non scendo fra i peccatori" Non dite: "Io sono ricco e felice, e non voglio udire le miserie altrui".
Badate che più rapido di fumo dissipato da gran vento può dileguarsi la vostra ricchezza, la vostra salute, il vostro benessere famigliare. E ricordate che il cristallo fa da lente, e ciò che mescolandovi fra la folla sarebbe passato inosservato, mettendovi in una torre di cristallo, unici, separati, illuminati da ogni parte, non potete più tenerlo nascosto. Misericordia per compiere un segreto, continuo, santo sacrificio di espiazione e ottenere misericordia.

(6) Beato me se sarò puro di cuore. Dio è Purezza. Il Paradiso è regno di Purezza. Niente di impuro può entrare in Cielo dove è Dio. Perciò se sarete impuri non potrete entrare nel Regno di Dio. Ma, oh! gioia! Anticipata gioia che il Padre concede ai figli! Colui che è puro ha dalla terra un principio di Cielo, perché Dio si curva sul puro e l'uomo dalla terra vede il suo Dio. Non conosce sapore di amori umani, ma gusta, fino all'estasi, il sapore dell'amore divino, e può dire: "Io sono con Te e Tu in me, onde io ti possiedo e conosco come sposo amabilissimo dell'anima mia". E, credetelo, che chi ha Dio ha inspiegabili, anche a se stesso, mutamenti sostanziali per cui diviene santo, sapiente, forte, e sul suo labbro fioriscono parole, e i suoi atti assumono potenze che non sono, no, della creatura, ma di Dio che vive in essa. Cosa è la vita di colui che vede Dio? Beatitudine. E vorreste privarvi di simile dono per fetide impurità?

(7) Beato me se avrò spirito di pace. La pace è una delle caratteristiche di Dio. Dio non è che nella pace.
Perché la pace è amore, mentre la guerra è odio. Satana è Odio. Dio è Pace. Non può uno dirsi figlio di Dio, né può Dio dire figlio suo un uomo se costui ha spirito irascibile sempre pronto a scatenare tempeste. Non solo. Ma neppure può dirsi figlio di Dio colui che, pur non essendo di proprio scatenatore delle stesse, non contribuisce con la sua grande pace a calmare le tempeste suscitate da altri. Colui che è pacifico effonde la pace anche senza parole. Padrone di sé e, oso dire, padrone di Dio, egli lo porta come una lampada porta il
suo lume, come un incensiere sprigiona il suo profumo, come un otre porta il suo liquido, e si fa luce fra le nebbie fumiganti dei rancori, e si purifica l'aria dai miasmi dei livori e si calmano le onde infuriate delle liti,
per quest'olio soave che è lo spirito di pace emanato dai figli di Dio. Fate che Dio e gli uomini vi possano chiamare così.

(8) Beato me se sarò perseguitato per amore della giustizia. L'uomo è tanto insatanassato che odia il bene ovunque si trovi, che odia il buono, quasi che chi è buono, anche se tace, lo accusi e rampogni. Infatti la
bontà di uno fa apparire ancor più nera la malvagità del malvagio. Infatti la fede del credente vero fa apparire
ancora più viva la ipocrisia del falso credente. Infatti non può non essere odiato dagli ingiusti colui che col
suo modo di vivere è un continuo testimoniare la giustizia. E allora, ecco, che si infierisce sugli amanti della
giustizia. Anche qui è come per le guerre. L'uomo progredisce nell'arte satanica del perseguitare più che non
progredisca nell'arte santa dell'amare. Ma non può che perseguitare ciò che ha breve vita. L'eterno che è
nell'uomo sfugge all'insidia, e anzi acquista una vitalità ancor più vigorosa dalla persecuzione. La vita fugge
dalle ferite che aprono le vene o per gli stenti che consumano il perseguitato. Ma il sangue fa la porpora del
re futuro e gli stenti sono tanti scalini per montare sui troni che il Padre ha preparato per i suoi martiri, ai
quali sono serbati i seggi regali del Regno dei Cieli.

(9) Beato se sarò oltraggiato e calunniato. Fate solo che di voi possa essere scritto il nome nei libri celesti, là dove non sono segnati i nomi secondo le menzogne umane nel lodare i meno meritevoli di lode. Ma dove però, con giustizia e amore, sono scritte le opere dei buoni per dare ad essi il premio promesso ai benedetti da Dio. Prima di ora furono calunniati ed oltraggiati i Profeti. Ma quando si apriranno le porte dei Cieli, come imponenti re, essi entreranno nella Città di Dio, e li inchineranno gli angeli, cantando di gioia. Pure voi, pure voi, oltraggiati e calunniati per essere stati di Dio, avrete il trionfo celeste, e quando il tempo sarà finito e completo sarà il Paradiso, ecco che allora ogni lacrima vi sarà cara, perché per essa avrete conquistato questa gloria eterna che in nome del Padre Io vi prometto.

Andate. Domani vi parlerò ancora. Restino ora solo i malati acciò li soccorra nelle loro pene. La pace sia con voi e la meditazione della salvezza, attraverso all'amore, vi instradi sulla via la cui fine è il Cielo».

***Solemnidad de Todos los Santos, S. Mateo 5, 1 - 12. LAS BIENAVENTURANZAS

Bartolome Esteban Murillo XVI-XVII.jpg



domenica 28 ottobre 2012

«Ubi est frater tuus Abel?: dov’è tuo fratello Abele?» (Gen 4,9)


[S. GERTRUDE] Recitando una volta in Avvento il responsorio «Ecce veniet Dominus protector noster, sanctus Israel: ecco verrà il Signore, il nostro protettore, il santo d’Israele» [Ia Domenica di Avvento], capì che se un’anima, abbandonandosi completamente a Dio, desidera con tutto il cuore di essere sempre diretta così nella prospera come nell’avversa fortuna dalla sua santissima volontà, rende a Dio in tal modo tanto onore e gloria quanta ne procura all’Imperatore colui che gli impone sul capo la corona a riconoscimento della sua autorità.
Un’altra volta, alle parole del Profeta Isaia: «Elevare, elevare, consurge Jerusalem: sorgi, sorgi, Gerusalemme!» (Is 51,17) comprese quali benefici provengono alla Chiesa militante dalla santità dei suoi eletti. Quando infatti anche una sola anima piena d’amore si volge al Signore con ardente preghiera e con vivo e sincero desiderio di riparare, potendo, tutte le offese recate al suo onore, Dio ne resta tanto placato che qualche volta, riconciliandosi coi peccati, perdona al mondo intero. Ed è ciò che viene espresso nella parole che seguono: «Usque ad fundum calicis bibisti: hai bevuto il calice fino in fondo», poiché allora la severità della giustizia si cambia nella dolcezza della misericordia. Ma ciò che ancora segue: Potasti usque ad fæces: hai bevuto fino alla feccia, lascia comprendere che per i dannati cui non spetta che la feccia della giustizia, non è possibile alcuna redenzione.
U’altra parola di Isaia: «Glorificaberis, dum non facis vias tuas: sarai glorificato se non segui le tue inclinazioni» (Is 58,13), le fece intendere che chi fa dei progetti e poi, riconoscendone la vanità, rinuncia al piacere di attuarli, consegue un triplice beneficio. Il primo è quello di poter trovare in Dio una gioia più profonda, come è detto: «Delectaberis in Domino: ti rallegrerai nel Signore!» (Sal 97,12). Il secondo è quello di sottrarsi più profondamente all’influsso sei pensieri cattivi, come sta scritto: «Sustollam te super altitudinem terræ: ti innalzerò al disopra di ogni più alta cima della terra». Il terzo è quello di ricevere poi dal Figlio di Dio nell’eterna vita una più piena partecipazione al frutto dei suoi meriti per la nobile e gloriosa vittoria che avrà riportato sulla tentazione. È detto infatti: «Cibabo te hæriditate Jacob patris tui: ti ciberò del retaggio di Giacobbe tuo padre».
In quest’altro testo di Isaia: «Ecce merces ejus cum eo: egli porta in sé la sua ricompensa» (Is 62,2), comprese che Dio nel suo amore è Egli stesso il premio dei suoi eletti. Egli si unisce a loro in un’unione così soave che ciascuno di essi potrà affermare in tutta verità di essere stato ricompensato immensamente al disopra di ogni suo merito, come è detto: «Et opus illius coram illo: e il premio dell’opera sua gli sta dinnanzi».
Comprese ancora che quando un’anima si affida tutta alla divina Provvidenza e desidera che la divina Volontà si compia in lei in ogni cosa, essa, per grazia di Dio, appare già perfetta al di Lui sguardo.
Il testo «Sanctificamini filii Israel: santificatevi o figli di Israele» [Responsorio della Vigilia di Natale] le fece comprendere che se un’anima prontamente si pente dei suoi peccati, deplora di non aver fatto tutto il bene che poteva fare, e propone con sincerità di cuore di obbedire d’ora innanzi ai precetti di Dio, subito essa appare santa al suo sguardo come quel lebbroso del Vangelo che il Signore degnò di purificare dalle sue colpe dicendogli: «Volo, mundare: lo voglio, sii mondato»(Mt 8,3).
Quest’altra parola della S. Scrittura: «Cantate Domino canticum novum: cantate al Signore un cantico nuovo» (Is 42,10), le fece comprendere che canta al Signore un nuovo cantico colui che conta con grande devozione. Infatti, per la grazia che Dio gli ha concessa di dirigere verso di Lui la sua attenzione, egli è interamente rinnovato e reso accetto al Signore.
Ancora: attraverso il testo di Isaia: «Spiritus Domini super me: lo Spirito del Signore è sopra di me» (41,1), con quel che segue: «Ut mederer contritos corde: per consolare i cuori spezzati», essa capì che il Figlio di Dio, mandato dal Padre per confortare coloro che son nell’afflizione, suole talvolta provare i suoi eletti con qualche sofferenza, anche lieve ed esteriore, per avere occasione di aiutarli. E lo fa, non togliendo loro la prova che è stata occasione della sua venuta e che è in sé un male (anche se il cuore ne soffre), ma piuttosto portando rimedio a ciò che veramente possa esserci di male in quell’anima.
Il versetto: «In splendoribus Sanctorum: nello splendore dei Santi», le diede l’intuizione dell’immensità e dell’incomprensibilità della luce di Dio. Capì che se ciascuno dei Santi, da Adamo fino all’ultimo uomo, ne avesse una conoscenza personale, chiara, profonda e vasta quanto è possibile ad umana creatura, distinta da quella di ciascuno degli altri Santi – e se per giunta il numero dei Santi fosse mille e mille volte più grande, la profondità della luce di Dio rimarrebbe inesausta e infinitamente al disopra di ogni intelligenza creata. Per questa ragione non sta scritto in splendore: nello splendore, ma «in splendoribus Sanctorum, ex utero ante luciferum genui te: negli splendori dei Santi, prima dell’aurora, prima dell’aurora io ti ho generato».
Una volta, nella festa di un Martire, mentre si cantava l’antifona: «Qui vult venire post me: chi vuol venire dietro a me», vide il Signore avanzarsi per una strada bella e fiorita, ma angusta e irta di spine. Lo precedeva una croce che, dividendo le spine, apriva un comodo passaggio. Il Signore si voltava indietro e con volto sereno invitava i suoi a seguirlo dicendo: «Qui vult venire post me, abneget semetipsum et tollat crucem suam et sequatur me: chi vuol venire dietro a me, rinneghi sé stesso, prenda la sua croce e mi segua». Essa comprese che per ciascuno la sua tentazione è la sua croce. Per qualcuno sarà una croce l’obbedienza che gli impone qualcosa di contrario alla sua inclinazione; per un altro sarà l’infermità che gli impedisce di occuparsi in cose di suo gradimento, ecc. Ciascuno pertanto deve prendere la propria croce, sopportando volentieri ciò che gli riesce contrario e non trascurando nulla, per quanto gli è possibile, di ciò che può tornare a gloria di Dio.
Il versetto: «Verba iniquorum, ecc: le parole degli empi», le fece comprendere che se qualcuno per umana fragilità commette qualche colpa se vien corretto duramente e non soltanto a parole, l’eccesso di severità provoca la misericordia di Dio ed è occasione di accrescimento di meriti per chi ha commesso la colpa.
Mentre un giorno si cantava la Salve Regina, alle parole: «Illos tuos misericordes oculos ad nos converte: volgi a noi i tuoi occhi misericordiosi», essa desiderò di ottenere la salute del corpo, e il Signore sorridendo dolcemente le disse: «Non sai che il mio sguardo si posa su di te pieno di misericordia quando sei oppressa dalla sofferenza fisica o spirituale?».
Nella festa di alcuni Martiri, mentre si cantava il responsorio «Viri sancti gloriosum sanguinem fuderunt: I Santi sparsero il loro sangue glorioso» [dal Comune dei Martiri], osservò fra sé che, se il sangue ispira ripugnanza, tuttavia, quando è versato per Cristo, viene esaltato nella Sacra Scrittura. Allo stesso modo certe trasgressioni materiali della regola che son dovute o all’obbedienza o a qualche motivo di fraterna carità, piacciono tanto al Signore che ben a ragione possono anch’esse esser considerate gloriose.
Un’altra volta comprese che per un occulto giudizio, Iddio permette talvolta che quando un malvagio con male arti cerca di estorcere un segreto a un suo eletto, riceva una risposta atta a confermarlo nella sua ostinazione e nella sua malvagità. È ciò che dice il Profeta Ezechiele: «Chi dà ricetto nel cuore alle sue infamie e fa buon viso alle occasioni della sua iniquità, e poi venga dal Profeta, volendo per suo mezzo interrogare me, gli risponderò ben io, il Signore, rinfacciandogli la moltitudine delle sue infamie affinché senta una stretta al cuore» (Ez 14,4-5).
Le parole che si cantano in nome di S. Giovanni: «Haurit virus hic lethale: Egli beve il veleno mortale» [Dall’antica vita di S. Giovanni e dal responsorio della sua festa], le fecero capire che, come la virtù della fede preservò Giovanni dagli effetti del veleno, così il mancato consenso della volontà fa sì che l’anima resti pura da colpa, per quanto velenosa sia la suggestione che si insinua, suo malgrado, nel cuore.
Il versetto: «Dignare Domine die isto: Degnati, o Signore, in questo giorno», fu l’occasione di un’altra illuminazione. Chi si raccomanda con questa preghiera al Signore per essere preservato dal peccato, per un occulto giudizio di Dio può anche darsi che poi si accorga di esser ugualmente caduto in qualche mancanza grave. Però non accadrà mai che non trovi pronto il sostegno della grazia per aiutarlo a tornare a Dio e rendergli più facile la penitenza.
Un giorno, mentre si cantava il responsorio: «Benedicens ergo Deus Noe: Dio benedicendo Noè» [Responsorio dell’antico breviario monastico per la Domenica di Sessagesima], essa, quasi in persona di Noè, si presentò davanti al Signore per chiedere la sua benedizione. Quando l’ebbe ricevuta, le parve che il Signore a sua volta aspettasse di essere da lei benedetto, e cioè magnificato. Gertrude comprese allora che l’uomo benedice e cioè santifica Iddio quando si pente di averlo offeso e implora il suo soccorso per non ricadere nel peccato. Il Signore dei cieli si china allora verso la sua creatura per mostrare che questa preghiera gli è gradita come se da essa dipendesse la salvezza del mondo intero.
Le parole: «Ubi est frater tuus Abel?: dov’è tuo fratello Abele?» (Gen 4,9), le fecero capire che il Signore chiederà conto a ciascun religioso di ogni mancanza contro la regola commessa da un suo confratello, qualora egli avesse potuto impedirla ammonendo il fratello stesso o avvertendo i Superiori. La scusa che si suol portare: Io non ho avuto l’incarico di correggere gli altri, oppure: Io son peggio di lui, non vale davanti a Dio più della risposta di Caino: «Nunquid custos fratis mei sum ego?: sono io forse il custode di mio fratello?». Davanti a Dio infatti ciascuno è tenuto a ritrarre dal male il fratello suo e ad esortarlo al bene; ogni volta pertanto che trascura questo suo dovere di coscienza pecca contro Dio. E poco gli giova affermare di non avere avuto l’incarico, perché questo incarico gli è stato dato da Dio in tutta verità come attesta la sua propria coscienza. Se lo trascura, il Signore ne chiederà conto a lui ancor più che al Superiore, il quale o non è stato presente al fatto o non l’ha rilevato. Perciò la Scrittura dice: «Vae facienti , vae, vae, consentienti: guai a chi fa il male, ma due volte guai a chi vi dà il consenso». Dà il suo consenso al male chi lo dissimula tacendo, mentre avrebbe potuto, manifestandolo, evitare un’offesa alla gloria di Dio.
Il responsorio: «Induit me Dominus: il Signore mi ha rivestita» [Dal Comune delle Vergini secondo il breviario monastico], le fece capire che chi cerca di promuovere con le parole e con le azioni la giustizia e l’osservanza religiosa, è come se rivestisse il Signore di una veste ricchissima. E il Signore lo ricompenserà nella vita eterna con la liberalità della sua regale munificenza, rivestendolo a sua volta di una veste di letizia e ponendogli sul capo una corona di gloria. Comprese ancora che chi nel combattere per il bene e per la religione avrà sopportato delle avversità, riuscirà particolarmente accetto a Dio, così com’è particolarmente gradito al povero un indumento che insieme lo veste e lo riscalda. Anche se, per l’opposizione del malvagio, il suo buon volere e il suo sforzo non fossero riusciti a nulla, la ricompensa che Dio gli riserva non soffriva alcun detrimento.
Si cantava una volta il responsorio: «Vocavit Angelus Domini: l’Angelo del Signore chiamò, ecc.» [Responsorio della Domenica di Quinquagesima], e comprese un’altra verità. L’assistenza degli Angeli sarebbe più che sufficiente a proteggere contro ogni male gli eletti, ma il Signore, nella sua paterna provvidenza, sospende talvolta la loro protezione e permette che gli eletti siano tentati, onde poterli poi ricompensare tanto più liberalmente quanto più, per la sottrazione dell’aiuto angelico, essi han trionfato del male con maggior loro sforzo.
Il responsorio che segue: «Vocavit Angelus Domini Abraham: l’Angelo del Signore chiamò Abramo», l’aiutò a capire che come il Padre dei credenti meritò per la sua fede di esser trattenuto da un Angelo nel momento in cui stendeva il braccio per compiere gli ordini del cielo, così il giusto che, per amore di Dio, si sottomette e si accinge con perfetta buona volontà a compiere un’opera difficile, merita al momento opportuno di essere sostenuto dalle dolcezze della grazia e consolato dalla testimonianza della sua coscienza. E questo è il dono col quale la munifica liberalità di Dio anticipa l’eterna ricompensa che verrà concessa a ciascuno in proporzione del merito.
Una volta, ripensando ad alcune avversità incontrate nella vita passata, domandò al Signore perché avesse permesso a certe persone di molestarla. Il Signore rispose: «Quando la mano del padre vuol correggere il figlio, la verga non potrebbe opporsi alla mano. Perciò i miei eletti non dovrebbero mai riferire i mali che soffrono agli uomini che ne sono lo strumento, ma dovrebbero sempre solo considerare il mio paterno affetto. Io non permetterei che il minimo soffio d’aria li molestasse se non avessi di mira la salvezza eterna con cui ricompenserò la loro sofferenza. Piuttosto dovrebbero compatire coloro che, perseguitandoli, macchiano la loro propria coscienza. Questo è il loro castigo».
Un giorno, alle prese con un lavoro difficile, disse all’eterno Padre: «Signore, ti offro questo lavoro per il tramite del Figlio tuo unigenito, nella virtù del tuo Santo Spirito, a eterna tua gloria». Capì in quel momento tutta la forza di questa preghiera. Si rese conto infatti che tale intenzione dà alla cosa offerta un valore più che umano e la rende gradita a Dio Padre. Come un oggetto guardato attraverso ad un vetro colorato assume per l’occhio lo stesso colore del vetro, così un’offerta fatta attraverso l’Unigenito figlio di Dio appare a Dio Padre sommamente accetta e gradita.
Stando in orazione, chiese un giorno al Signore che vantaggio ricavavano i suoi amici da tante preghiere che per essi faceva, dato che non ne vedeva alcun effetto. Il Signore l’illuminò con questa similitudine: «Quando il figlio, ancora bambino, di un nobile ritorna dalla corte dell’Imperatore che l’ha investito di un grandissimo feudo, coloro che lo vedono passare non scorgono in lui che il bambino, e non si accorgono affatto dell’investitura   che farà di lui più tardi un grande e potente signore. Non ti stupire dunque se non puoi constatare con gli occhi l’effetto delle tue preghiere, perché Io ne dispongo secondo la mia eterna sapienza per il tuo maggior bene. Quanto più spesso si prega per qualcuno, tanto più grande è la felicità che gli si procura. Nessuna preghiera rimane senza frutto, anche se gli uomini non possono rendersi conto del modo con cui essa opera».
Desiderò una volta di capire qual frutto di santità provenga all’anima dallo sforzo di dirigere ogni suo pensiero a Dio. Ricevette questo insegnamento. Quando l’uomo meditando e pregando tiene il suo pensiero fisso in Dio, è come se presentasse davanti al trono della divinità uno specchio tersissimo, nel quale il Signore contempla con gioia la propria immagine. Infatti è Lui che ispira e dirige tutto ciò che è bene. L’uomo, per la sua debolezza, incontra talvolta nell’esercizio della preghiera delle difficoltà, ma quanto più grave è lo sforzo che egli deve fare, tanto più terso sarà lo specchio che eglipresenta all’adorabile Trinità e a tutti i Santi. E questo specchio rimarrà in eterno, a gloria di Dio e a perenne gioia dell’anima.
In una certa festa non poté prender parte al canto per il suo solito mal di capo. Domandò allora al Signore perché mai permettesse che questo mal di capo le venisse di preferenza nei giorni festivi. E il Signore: «Per impedire che, tutta presa dal piacere del canto, tu diventi meno atta a ricevere le mie grazie». «Ma, Signore – ella disse – la tua grazia potrebbe preservarmi da questo pericolo». E il Signore: «Sì, ma riesce di maggior vantaggio all’uomo che l’occasione di una caduta gli sia tolta dalla prova delle sofferenza, perché in tal caso ha doppio merito: quello della pazienza e quello dell’umiltà».
Nell’impeto del suo affetto, un giorno diceva al Signore: «O Signore, se un fuoco ardente potesse liquefare la sostanza della mia anima, sì da permetterle di potersi più facilmente trasfondere in Te!». «Sia la tua volontà questo fuoco» le rispose il Signore. Essa comprese da questa parola che con la sola volontà l’uomo può conseguire il pieno effetto di tutti i desideri che hanno Dio per oggetto [sempre supponendo che nulla possiamo di buono senza la grazia di Dio]
Cercava spesso di ottenere da Dio con la preghiera l’estirpazione di qualche vizio in sé o negli altri; e le pareva che il miglior modo in cui Dio poteva concederle questa grazia fosse quello di indebolire la forza degli abiti cattivi, perché allora, tenuta a freno da una specie di necessità che risulta dalla consuetudine e che è chiamata una seconda natura, l’anima può facilmente resistere al male. Ma riconobbe poi anche in ciò un’ammirabile disposizione della divina bontà a salvezza del genere umano. Per accrescere l’eterno peso di gloria delle anime, Dio permette che esse siano talvolta violentemente attaccate dalla tentazione affinché possano esultare di un più felice trionfo.
Durante una predica, intese dire una volta che nessuno si salva senza l’amore di Dio, almeno senza quel minimo grado di amore verso Dio che induce a pentirsi dei peccati per amor suo e ad emendarsene. Essa pensò fra sé che molti se ne vanno da questo mondo pentiti dei loro peccati più per il timore dell’inferno che per amore di Dio. ma il Signore le disse: «Quando vedo in agonia un’anima che qualche volta ha pensato con dolcezza a Me durante la sua vita, o che ha compiuto qualche opera buona almeno nei suoi ultimi giorni, Io mi mostro a lei con tanta bontà e misericordia che essa si pente dal profondo del cuore di avermi in passato offeso, e questo pentimento la salva. Vorrei che i miei eletti mi rendessero particolari azioni di grazie per tale beneficio».
Una volta, meditando su stessa, fu così colpita dalla propria interiore deformità e ne provò tanto disgusto, che con ansia cominciò a chiedersi se potesse mai riuscire accetta a Dio che vedeva la sua anima macchiata di tante colpe. Essa ne vedeva infatti qualcuna, ma per lo sguardo penetrante di Dio esse erano innumerevoli. Il Signore le diede questa consolante risposta: «È l’amore che mi rende accette le anime». Capì allora che se, sulla terra, l’amore ha tanta forza da rendere amabili anche esseri deformi, tanto da far persino desiderare di essere simili a loro, come potremmo diffidare di Dio, e pensare che Egli che è Carità, non possa in forza del suo amore compiacersi in coloro che ama?
Desiderava ardentemente, come l’Apostolo, di venir liberata dal corpo per essere col Cristo, e dal profondo del cuore faceva salire a Dio il suo gemito di implorazione. Il Signore degnò un giorno di consolarla con questa risposta: Ogni qual volta essa, con sincerità di cuore, avesse espresso il desiderio di venir liberata da questo carcere di morte, aderendo però alla volontà di Dio e accettando di rimanere nel corpo finché a Lui piacesse, altrettante volte  il Figlio di Dio le avrebbe applicato i meriti della sua  santissima vita, onde prepararla in questo mirabile modo a comparire al cospetto del Padre suo.
Ripensava un giorno alle numerose e svariate grazie che la liberale misericordia di Dio le aveva elargito, e si riconosceva misera ed indegna di ogni bene per aver sciupato con la sua negligenza innumerevoli doni. Non ne aveva ricavato alcun frutto per sé, non aveva saputo renderne grazie, e d’altra parte il prossimo, che le ignorava, non aveva potuto trarne alcuna edificazione né aiuto per elevarsi ad una più profonda conoscenza di Dio. Fu confortata dal Signore con questa illuminazione. Il Signore non spande i suoi doni sugli eletti perché attenda da ciascun dono un frutto speciale – Egli sa che la fragilità dell’uomo non può esser da tanto – ma perché non può contenere la ricchezza della sua misericordia e della sua liberalità, e vuole in tal modo preparare la creatura alla sovrabbondanza della celeste beatitudine. Suole accadere così anche per i beni terreni di cui qualche volta viene arricchito un bambino: egli non sa trarne per il momento alcuna utilità, ma quando sarà adulto entrerà in possesso di grandi ricchezze. Così il Signore conferendo in questa vita la sua grazia agli eletti, li arricchisce di un bene di cui potranno godere soltanto quando entreranno nel giardino eterno del cielo.
Una volta si doleva in cuor suo di non sentire un desiderio abbastanza grande di lodare il Signore. Una illuminazione soprannaturale le apprese che Dio si accontenta che l’anima, quando non può far di meglio, si applichi a voler avere un grande desiderio del bene: quanto più intensa è questa volontà, tanto più grande è in realtà il suo desiderio agli occhi di Dio. Quando il cuore contiene questo desiderio – Dio si compiace di abitare in esso come l’uomo si compiace di abitare in primavera in un luogo ameno e fiorito.
Una volta, a causa delle sue infermità, aveva per alcuni giorni atteso a Dio con minor diligenza, e, ritornata poi in sé; piena di  rimorso cercava con umile devozione di confessare la sua colpa al Signore. Era presa dal timore di dover sospirare chissà quanto tempo prima di poter di nuovo sperimentare la soavità della grazia di Dio. Ma ecco che in quello stesso momento, si sentì circondata con grande dolcezza dalla misericordia divina che si chinava su di lei e le diceva: «Figliuolina, tu sei sempre con me, e tutto ciò che è mio è tuo». Queste parole le fecero capire che se, per fragilità, l’uomo talvolta trascura di dirigere a Dio la sua intenzione, tuttavia la pia misericordia del Signore non cessa dal giudicare degna di eterna ricompensa ogni sua opera, purché la sua volontà non si allontani da Lui ed egli sia sempre pronto a pentirsi di ogni colpa di cui abbia coscienza.
All’approssimarsi di una certa festa, ebbe il presentimento di una prossima malattia, e pregò il Signore di conservarla in salute fin dopo la solennità, o almeno di far in modo che il male non le impedisse di prender parte alla festa, sottomettendosi però in tutto alla sua volontà divina. «La disposizione d’animo che t’induce a farmi questa preghiera – rispose il Signore – e a rimetterti insieme alla mia volontà, è per me come un giardino di delizie tutto pieno di aiuole fiorite. Ma se ti esaudisco e ti lasci prender parte alla festa, sarò io che ti seguirò verso l’aiuola che preferisci; se invece non ti esaudisco e tu conservi la pazienza, sei tu che segui me verso l’aiuola che più mi piace. Se questo buon desiderio sarà unito in te a un po’ di sofferenza, Io potrò infatti compiacermi in te assai di più che se tu mi esprimessi la tua devozione con la gioia di veder soddisfatto il tuo desiderio».
Si domandava un giorno per qual segreto giudizio alcuni godessero di tanta ricchezza di consolazioni nel servizio di Dio e altri rimanessero invece tanto aridi. Fu così illuminata dal Signore: «Dio ha creato il cuore dell’uomo per la gioia, come la brocca è stata fatta per contenere l’acqua. Se però la brocca perdesse il liquido attraverso impercettibili incrinature, finirebbe per vuotarsi e rimanere asciutta. Allo stesso modo se l’uomo quando ha il cuore pieno di gaudio spirituale lo lascia sfuggire attraverso i sensi esterni, guardando ed ascoltando tutto ciò che gli piace e soddisfacendo tutte le sue inclinazioni, può darsiche lasci svaporare tutto il suo contenuto spirituale, tanto da ridursi a non saper più trovare la sua gioia in Dio».
«Ciascuno può farne l’esperienza in se stesso quando gli viene il desiderio di guardar qualcosa o di dire una parola da cui possa ricavare poco o nessun profitto. Chi segue subito l’impulso naturale dà prova di poco amore per i beni spirituali, e il cuore allora ne  resta privo come resta priva d’acqua la brocca incrinata. Se invece per amor di Dio resiste all’impulso, la gioia spirituale cresce di tanto che il cuore non vale più a contenerla. Chi impara a vincersi in queste cose si avvezza a poco a poco a cercar in Dio le sue delizie, ed esse sono tanto più grandi quanto maggiore sarà stato lo sforzo con cui ha dovuto conquistarle».
Un giorno in cui si sentiva profondamente depressa per una piccola cosa, offrì durante l’elevazione dell’Ostia la sua desolazione al Signore ad eterna sua gloria. Il Signore parve allora attirarla a sé con l’Ostia sacrosanta attraverso ad una misteriosa porta, e la fece dolcemente riposare sul suo petto dicendo: «Ecco, qui troverai sollievo ad ogni tua pena; ma ogni volta chete ne allontanerai, l’amarezza del cuore ti riprenderà e ti servirà da antidoto salutare per richiamarti a Me».
Un giorno, sentendosi spossata di forze, diceva al Signore: «Signore, che cosa succederà? Che disegno hai su di me?». Il Signore rispose: «Come una madre consola i suoi figli, così Io sempre ti consolerò». E aggiunse: «Hai visto qualche volta una madre nell’atto di consolare il suo figliuolino?». Essa tacque, non avendo presente lì per lì alcun ricordo del genere. Il Signore allora le ricordò che, circa sei mesi prima, aveva appunto visto una mamma che consolava il suo bambino, e le fece rilevare tre cose che allora aveva avvertito. Anzitutto la mamma chiedeva spesso al suo bambino di abbracciarla, e il piccino, le cui membra erano ancora tenere e delicate, cercava tuttavia di fare uno sforzo per alzarsi. Allo stesso modo, le disse il Signore, essa doveva fare tutto quanto stava in lei per giungere, attraverso la contemplazione, a godere la dolcezza del suo amore.
In secondo luogo la madre metteva a prova la volontà del suo bambino dicendogli: «Vuoi che faccia così? vuoi che faccia in quest’altro modo?», ma poi non faceva né l’una né l’altra cosa. Così Dio alle volte prova l’uomo mettendogli davanti la possibilità di qualche pena che poi non sopraggiunge, e tuttavia, poiché l’uomo ha fatto un atto di adesione alla sua volontà, il Signore è contento e lo giudica degno di un’eterna ricompensa. Infine le fece osservare che nessuno dei presenti, all’infuori della madre, capiva il linguaggio del bambino che no nera ancora capace di articolare le parole. Così solo Dio comprende l’intenzione dell’uomo e secondo questo lo giudica, ben diversamente da quanto fanno gli uomini che giudicano soltanto dalle apparenze esterne.
Una volta, il ricordo dei suoi peccati passati la coprì di tanta confusione che nella sua umiltà avrebbe voluto nascondersi anche agli occhi di Dio. Ma il Signore si chinò su di lei con  tanta degnazione che tutta la corte celeste, quasi presa da stupore, avrebbe voluto trattenerlo. «Non posso fare a meno, dichiarò il Signore, di chinarmi verso quest’anima che con tanta forza di umiltà attira a sé il mio Cuore divino».
Chiese un giorno al Signore a che cosa desiderava che si applicasse in quel momento: «Voglio che ti applichi alla pazienza». Essa, che era tutta agitata per una certa contrarietà, rispose: «E in che modo e con quale mezzo posso impararla?». Il Signore allora attirandola a sé come un buon maestro fa col suo piccolo discepolo, le propose tre esempi che dovevano animarla a praticar questa virtù: «Osserva con quanta familiarità il Re tratta coloro che, più degli altri, son sempre pronti a seguirlo in ogni impresa; e pensa quanto s’accresca, per conseguenza, il mio affetto per te quando per mio amore sopporti come ho fatto le ingiurie». Poi passò al secondo esempio: «Osserva ancora con quanto rispetto tutti i membri della corte trattino colui che il Re onora della sua particolare amicizia e associa a tutte le sue imprese; e pensa perciò quanta gloria avrai in cielo per la tua pazienza». In terzo luogo le disse: «Considera quanto conforto si trova nell’affettuosa compassione di un amico fedelissimo; e pensa con quanta soave bontà Io ti consolerò in cielo per ogni pena che avrai provata anche solo per un pensiero che ti sia causa di contrarietà».